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APDT
AGENDA DE TELETRABALHO
02 de Agosto de 2001 Número – 05
Sócios Novos
Maria Luisa nascimento; Ana
Cristina Castanheira Carneiro ; Paula Veiga; Lígia Catarina Pinhão Gonçalves; Ricardo
Figueiredo; Henrique Estrela; Maria de Fátima Colaço; Cristina Maria G. C. Cruz;
Monica Torpes Duarte; Sônia Fernandes Rodrigues; Arnaldo Tavares da Costa; João
Fernandes Matos de Oliveira; Luís Miguel Soares Ferreira; Maria Isabel
Fernandes; Vítor Augusto Rodrigues; Jaime Duarte; João Paulo Cabral; Ana Maria
Lopes Rego; José Francisco Casal Pina; João Santos Noivo; Anabela Maria Mira
Freitas; Catarina Maria Poiares
!BEM VINDOS!
Divirta-se com o Artigo em
Destaque
O
TELETRABALHADOR
TRINNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN
Tele-U-Orque
é o seu nome. Tacteando pelo quarto, lá encontra o despertador. O seu primeiro
impulso é o de o jogar contra a parede. Entretanto, pensa na responsabilidade
de mais um dia de trabalho e desiste da ideia.
Levanta-se
meio a cambalear, e a caminho do WC aproveita para ligar o seu computador, o
seu ganha pão. Bem, ganha pão é força de expressão, mas o lema do nosso amigo
Tele é – não desista, persista!
Na
cozinha, com os olhos vermelhos, pois os pingos ainda não fizeram efeito, põe a
água a aquecer para o café. Sem perder tempo, Tele vai ao computador e vê os
e-mails, que carinhosamente apelidou de bo-e-mails.
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-
Que
chatice! Ainda só chegaram dez e-mails. Assim é difícil trabalhar!
Volta
para a cozinha e põe mais água a ferver. A outra já tinha evaporado.
A
esposa de Tele já estava acordada. Precisava de acordar as crianças para irem
para a escola.
Enquanto
a família se arranja para sair, Tele toma um bom gole de café e consegue,
espantar quase de vez o sono, que teima em o atormentar.
-
-
Tele –
chama a esposa dedicada – Podes ir ao supermercado?
Ele
pensa uma, duas e três vezes antes de responder.
Posso –
gritou finalmente – mas não vou fazer o almoço.
Pobre
Tele! Disse isto por dizer. Se ele não o fizesse, quem o faria?
Finalmente
ficou com a casa só para si. Pega numa xícara de café e liga a TV para assistir
ao jornal da manhã. Note-se que é o único programa a que Tele se permite
assistir.
Aproveita
o intervalo comercial e dá um pulinho ao computador para ver se já há mais
e-mails. Já que está ali, dá uma passadinha na página que está a desenvolver,
para ver quantas visitas houve.
Quando
volta á sala da TV percebe que já está a dar o outro intervalo comercial.
Resolve ferozmente, que não se vai levantar outra vez até ao final do programa.
Uma
notícia em particular prende-lhe a
atenção.
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-
E se
eu desenvolver um serviço de venda de perguntas que geralmente aparecem nos
concursos? – pensa em voz alta?
Pega
num bloquinho, que está sempre com ele, e começa a fazer anotações de como
poderia oferecer esse tipo de serviço. Quando acabou as anotações já o programa
tinha terminado.
Quando
entra no seu home-office-com-WC, verifica que está muito desarrumado. O melhor
é dar-lhe um jeito, antes de começar a trabalhar.
Tudo
Pronto!
Põe a
sua cadeira entre a cama e a secretária, e senta-se confortavelmente para
trabalhar.
-
-
Meus
Deus! Duzentos e trinta e cinco e-mails acumulados na pasta inbox.
Resolve
de imediato apagá-los, já que os importantes vão parar a outras pastas.
Inicia
o trabalho abrindo o arquivo do livro que está a escrever. A sua programação
diária inclui a tarefa de escrever mais um trecho do livro. A inspiração custa
a chegar, mas finalmente Tele começa a escrever.
TRINNNNNN, TRINNNNNN – O telefone
toca!
Esbraveja
como sempre, que precisa de comprar um atendedor de chamadas e, como sempre,
promete a si próprio comprar um assim que tiver dinheiro. Enquanto isso...
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-
Alô !
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-
Olá
Tele, é o Pedro o teu irmão.
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-
Diz
Pedro, mas rápido que estou a trabalhar.
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-
Olha,
tenho uma possibilidade de emprego para ti.
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-
Pedro,
já te disse não sei quantas vezes, que me quero especializar em teletrabalho.
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-
Estou-me
sempre a esquecer disso. Mas estás a ganhar dinheiro?
-
-
Bem,
por enquanto não, mas há boas possibilidades. O mercado começa a crescer.
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-
Queres
enviar o teu CV ou não?
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-
O.k. ,
dá-me o e-mail.
-
-
Não
têm. Só tenho o endereço da empresa.
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-
Dá-me
logo essa porcaria!
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-
Escreveste?
-
-
Sim!
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-
Um
beijo e não te esqueças de enviar o CV.
Esta
era uma das coisas que mais o punham fora de si. Ninguém o apoiava.
A
pressão para voltar a um trabalho tradicional, era enorme. Já haviam pessoas
que o chamavam de acomodado – Enquanto a mulher trabalha, aquele leva o dia a
brincar na Internet.
Por
mais que tentasse resistir, não podia deixar de evitar que um sentimento de
culpa o invadisse.
Com um
misto de raiva-frustação-culpa imprimiu o CV e colocou-o num envelope.
Precisava
de fazer uma pesquisa na rede e accionou o browser. A ligação estava
desconectada pois tinha atingido o tempo estipulado para aquele mês. Precisava
de fazer um carregamento de 10 contos.
Fez o
carregamento, mas não conseguia desconectar a consciência que teimava em lhe
sussurrar – Olha a conta do telefone no final do mês! Olha a conta!!!!!!!
Seria
uma pesquisa rápida e Tele resolveu ignorar a tal vozinha.
Duas
horas passadas e ele já havia conseguido alguma informação que copiou para o
hard-disk para poder ler com calma.
De
repente a agenda lembrou-lhe que as crianças estavam a chegar. Lembrou-se do
supermercado, mas já não tinha tempo.
Foi a
correr para a cozinha e resolveu fazer uns ovos com salsichas. Este seria o
almoço. Meio entristecido lembrou-se que assim que tivesse dinheiro teria de
comprar um microondas.
Arrumou
a cozinha que estava desarrumada desde o pequeno almoço.
Voltou
para o seu posto de trabalho com a intenção de continuar o livro.
As
crianças chegaram da escola. Chamou-os para conversar.
-
-
Meus
filhos, o pai tem muito que fazer e precisa de tranquilidade.
-
-
Está
bem pai.
-
-
Quero
que vocês tomem banho, almocem durmam a sesta e depois comecem a estudar.
-
-
Está
bem pai.
-
-
Era
todos os dias a mesma coisa. Mas Tele não perdia a esperança.
Estava
a escrever o segundo parágrafo do capítulo, quando uma discussão na sala,
quebrou o seu raciocínio.
Levantou-se
e resolveu a questão, e mandou os filhos lavarem a loiça. Em vão tentou voltar
a escrever. Uma dor de cabeça impedia-o de se concentrar. Desistiu e resolveu
ir tomar um banho.
Pegou
numa revista para ler. Como todas as revista, esta também focava a história de
alguém que teve sucesso na Internet ou como teletrabalhador. Mil ideias
fervilhavam-lhe pela mente. Tele sonhava. Tinha esperanças.
Foi
fazer um café e deparou-se com a cozinha por arrumar. Sem ânimo para brigar com
as crianças, resolveu arrumá-la.
Fez o
café e foi fumar um cigarro, sentado no banco à frente da casa. Precisava de
organizar as ideias, para que pudesse produzir alguma coisa durante a tarde.
Que tarde! Pensou ele, pois já eram 14:00 horas.
Ás
15.00 horas voltou ao computador. As crianças já estavam a dormir. Conseguiu
terminar o capítulo do livro. Olhou orgulhoso a sua pequena vitória.
Quando
ia a começar a trabalhar na página de consultoria, que estava a desenvolver, o
seu filho Beto entrou no quarto.
-
-
Beto,
já te pedi para não me interromperes.
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-
Mas,
pai – exclamou a criança – Estou a estudar e tenho uma dúvida.
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-
Agora
não posso!
Um
conhecido sentimento de culpa, tomou novamente conta dele. Não conseguiria
voltar a trabalhar se não ajudasse o filho.
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-
O que
é que queres? – acabou por perguntar.
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-
Estou
com dúvidas a matemática. Tele era engenheiro.
-
-
Deixa
ver!
No
final da tarde a esposa chegou.
-
-
Tele
trouxe pão fresco. Vamos lanchar?
Lembrou-se
que não tinha almoçado e aceitou.
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-
Tele –
disse a esposa muito entusiasmada-
disseram-me na escola que abriu um concurso para fiscal de impostos.
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-
Não!
Por favor não! – retorquiu já cansado.
Nesta
altura Tele já só tinha a noite para trabalhar e estava tudo atrasado.
Entregou
o leme da casa à esposa e voltou para o computador.
Ás
21:00 horas a esposa entra no quarto. As crianças já estavam a dormir.
-
-
Não
vens aqui um bocado para o pé de mim?
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-
Espera
só um pouco. Já estou a acabar. É só responder a mais alguns e-mails e já vou
para aí.
Ás
22:30 a esposa retornou.
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-
Tele,
vou dormir!
O
problema é que o local de trabalho e de dormir era só um.
Está
bem. Fico a trabalhar com a luz do computador.
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Queres
que eu durma na sala?
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-
Não!
Podes dormir na cama.
Como
poderia ele aceitar que a esposa fosse dormir para a sala. Lembrou-se do sonho
antigo de ter um computador portátil. Jurou que iria comparar um, assim que
tivesse dinheiro.
Resolveu
ir para a sala e ver um pouco de TV, para tentar esvaziar a cabeça e não pensar
em mais nada.
À
meia-noite resolveu voltar para o computador. Entrou num chat, para falar com
alguém.
Ás 4:00
horas da manhã já estava bêbado de sono. Tinha de acordar ás 6:00 horas, para
mais um dia de trabalho. Foi dormir.
Já lá
vão dois meses que não vejo o Tele, mas tenho a certeza de uma coisa. Se o
teletrabalho for um sucesso, como Tele espera, será graças a esses
teletrabalhadores desbravadores, que estão a iniciar uma nova relação de
trabalho. Apanhando, levantando-se, caindo, levantando-se, sofrendo
preconceitos, levantando-se, sempre firmes no propósito de preparar e de
participar de uma nova era.
Este texto foi adaptado de um artigo de Sílveo Correa
publicado no wwworking.com